A Origem Bizarra de Expressões Populares
- thacianamariani

- 11 de jun. de 2025
- 4 min de leitura
Atualizado: 17 de jun. de 2025
Você já disse que algo “acabou em pizza”? Ou que alguém “ficou a ver navios”? O que pouca gente sabe é que essas expressões, tão comuns no nosso dia a dia, têm origens muito mais estranhas (ou sombrias) do que imaginamos.

Neste artigo, vamos explorar a história por trás de expressões populares brasileiras que parecem inofensivas, mas têm origens ligadas à política, tortura, mortes e outros causos curiosos da nossa história.
1. Acabar em pizza
Hoje: Significa que tudo termina sem punição, especialmente em escândalos políticos.
Origem: Surgiu no futebol paulista nos anos 1960. Após uma reunião tensa entre dirigentes, todos terminaram a noite comendo pizza, sem resolver nada. O jornalista Milton Peruzzi eternizou a frase:“A reunião terminou em pizza.”
2. Ficar a ver navios
Hoje: Ficar esperando por algo que nunca acontece.
Origem: Ligada ao ex-imperador Dom Sebastião, de Portugal, que desapareceu em batalha. Muitos portugueses esperavam sua volta, olhando para o mar de Lisboa, vendo apenas navios e nunca o imperador. Essa espera virou símbolo de frustração coletiva, desilusão e quase “fanatismo místico”, já que envolvia crença em milagres.
3. Para inglês ver
Hoje: Algo feito só de fachada.
Origem: No século XIX, o Brasil fingia abolir o tráfico de escravos para agradar os ingleses, que pressionavam pela abolição. Leis eram criadas “só para inglês ver”, sem efeito prático.
4. Deixar a peteca cair
Hoje: Falhar em algo, perder o ritmo.
Origem: A “peteca” era um brinquedo indígena usado em rituais e jogos. Durante esses jogos, quem deixava a peteca cair mostrava fraqueza ou descuido — um fracasso simbólico.
5. Com o pé atrás
Hoje: Estar desconfiado ou em alerta.
Origem: Vem do mundo da esgrima e da dança. Ao manter um pé atrás, a pessoa se preparava para recuar ou se defender rapidamente, em caso de ataque ou traição.
6. Descascar o abacaxi
Hoje: Resolver um problema difícil.
Origem: O abacaxi, apesar de delicioso, é espinhoso, duro e complicado de descascar. A metáfora é clara: lidar com problemas trabalhosos é como encarar a fruta sem faca.
7. Lavagem de roupa suja
Hoje: Resolver brigas pessoais em público.
Origem: Na Europa medieval, era comum famílias lavarem roupas juntas nos rios. Discutiam ali mesmo, na frente de todos, expondo seus problemas íntimos “em público”.
8. Encher linguiça
Hoje: Falar ou escrever para “encher espaço” sem conteúdo relevante.
Origem: Antigamente, carne era cara e linguiça era “esticada” com farinha, miúdos ou até coisas menos nobres. A expressão virou sinônimo de encher com qualquer coisa, só pra render.
9. “Pagar o pato”
Hoje: Arcar com a culpa ou consequência por algo que não fez.
Origem: Na Idade Média, vendedores de rua aplicavam golpes com truques de mágica, vendendo “patos mágicos” que obviamente não funcionavam. Quando a farsa era descoberta, o comprador lesado era ridicularizado, ou seja, “pagava o pato” por ter caído no golpe.
10. “Casa da mãe Joana”
Hoje: Lugar bagunçado, sem regras.
Origem: Referência a Joana I de Nápoles, que permitiu a abertura de prostíbulos legalizados em Avignon, França, no século XIV. Esses lugares eram malvistos e frequentemente associados a bruxaria, promiscuidade e desordem. A expressão carrega esse peso histórico de um local “onde tudo vale”.
11. “Com a corda no pescoço”
Hoje: Estar em situação de grande pressão ou perigo.
Origem: Referência direta à forca, método de execução muito comum até o século XIX. Quem estava “com a corda no pescoço” era literalmente um condenado à morte — ou simbolicamente, prestes a “perder tudo”.
12. “A coisa tá preta”
Hoje: Situação complicada, difícil.
Origem: Associada ao período da escravidão no Brasil. “A coisa tá preta” se referia à chegada de senhores de escravos ou a situações em que negros eram punidos ou açoitados. Hoje é considerada uma expressão racista, mesmo usada inconscientemente, por essa associação histórica.
13. “Fechar o corpo”
Hoje: Fazer um ritual de proteção espiritual.
Origem: Vem das religiões afro-brasileiras e do espiritismo. Envolve magia ou feitiçaria protetiva, feita para tornar a pessoa “invulnerável” a malefícios, armas ou feitiços. Está ligada a rituais sérios, muitas vezes com fundamentos religiosos profundos.
14. “Estar com o rei na barriga”
Hoje: Pessoa arrogante, que se acha superior.
Origem: Vem da época em que rainhas grávidas eram tratadas como nobres supremos, pois carregavam herdeiros reais. Também há registros de uso popular entre parteiras e curandeiros, que diziam que crianças "de alma superior" causavam mais enjoos e dores, associando isso a doenças ou possessões.
15. “Dar com os burros n’água”
Significado hoje: Fracassar em um plano.
Origem: Os tropeiros que atravessavam o interior do Brasil com burros de carga enfrentavam grandes riscos. Quando o animal caía em um rio ou atoleiro, significava prejuízo, castigo da natureza ou até perda total da carga, uma espécie de tragédia para o viajante.
16. “Morrer na praia”
Significado hoje: Quase conseguir algo, mas falhar no final.
Origem: Ligada a náufragos que conseguiam escapar de um naufrágio, nadavam até perto da costa, mas morriam antes de chegar à praia, por exaustão ou doença. Simboliza frustração trágica.
17. “Passar o cerol” (em alguém)
Significado hoje: Prejudicar alguém discretamente.
Origem: Cerol é uma mistura cortante (geralmente vidro moído com cola) aplicada em linhas de pipa para ferir ou cortar a linha do oponente. A expressão ganhou tom sombrio por estar ligada a ferimentos sérios, inclusive acidentes fatais, especialmente quando usado contra motociclistas.
Essas expressões mostram como a língua é viva, histórica e cheia de camadas ocultas. Muitas vezes, repetimos frases sem imaginar que estão carregadas de passado, às vezes cômico, outras vezes bem sombrio.
As informações desta matéria foram reunidas a partir de pesquisas em fontes históricas, dicionários etimológicos e estudos sobre o folclore e a cultura popular brasileira.



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